segunda-feira, 14 de julho de 2008

O Despertar


E então ela ocorreu
Já se passaram quarenta e nove anos desde que nosso mundo mudou para algo praticamente
irreconhecível.
Quase meio século do que podemos chamar de progresso, e nós ainda estamos presos nesse
vai-e-vem de opressão, preconceito, destruição e sobrevivência. Como pessoas, nós inovamos e
criamos motivados mais pelo dinheiro do que pelo simples prazer de trazer algo novo para o
mundo. Nós estamos mais do que predispostos a subir ao topo passando por cima das carcaças de
nossos colegas. Ao invés de usar a tecnologia para melhorar a humanidade como um todo, nós
permitimos que ela nos separasse ainda mais. Se nós algum dia tivemos uma era dourada, de algum
modo, passamos por ela sem conseguir algo duradouro ou importante.
Meu nome é Capitão Caos, e estou tendo um péssimo dia.
Para aqueles que não me conhecem, eu sou o SysOp1 da Shadowland, uma sofisticada BBS
sediada em Seattle. Se essa descrição não ajudou, pense na Shadowland como um tipo de repartição
da biblioteca de Denver (um refúgio de dados conhecido como o centro da informação) onde a
assistência e troca de dados são gratuitas para qualquer pessoa que possa achá-la.
E esse é exatamente o meu problema de hoje. Eu gastei anos colecionando e publicando
aventuras de outras pessoas, avisos e piadas para esta coluna, e esse tempo foi muito instrutivo e
agradável. Nós pudemos poupar muitas pessoas de problemas de um jeito ou de outro, e isso é uma
realização gratificante de se ter relacionado ao seu nome. Infelizmente, nem todo mundo entende o
que fazemos aqui, e nem todo mundo que encontra o caminho para a Shadowland sabe lidar com o
que encontrou. Por causa disso, ocasionalmente temos que aceitar o triste fato de que novatos
encontram um meio de se auto-destruírem ignorando os conselhos dos mais experientes - e os dois
cabeças de vento que quebraram e se queimaram na Matrix a menos de duas horas atrás
representam o melhor exemplo do que acontece com pessoas com muito dinheiro e tão pouco
conhecimento.
Devido a esse fato, hoje eu estarei aproveitando de minha posição e usarei a Shadowland para
publicar meu discurso favorito, sem interrupções. O tópico é: o mundo em que vivemos e como ele
foi parar desse jeito. A justificativa é a de que, aqueles que se recusam a aprender a história, estão
amaldiçoados a repeti-la – e eu estou cansado de repeti-la em minha coluna. Perdoem minha
atitude, mas eu não vou escutar as reclamações.
No Sexto Mundo2, megacorporações multinacionais manipulam o mundo para benefício
próprio – e shadowrunners, caras vivendo no limite como eu e você, fazem o trabalho sujo das
corporações pelo dinheiro. Atualmente, sobrevivência significa trabalhar nas sombras; mentir,
roubar e matar deve ser natural para que você permaneça vivo. A tecnologia que tanto precisamos
não nos uniu. Rede de comunicação global? Excelente idéia, mas não é de muito uso quando
metade da população está chapada de sensorama e o restante não tem acesso aos terminais de dados
porque são forçados a viver em favelas. Os ricos se tornam mais ricos e os pobres cada vez mais
numerosos, por causa disso os abastados se entrincheiram em seus territórios e deixam os outros
jogados em barracos para apodrecer. Grandes pedaços do planeta estão morrendo, soterrados pelo
lixo das cidades ou estrangulados pelas corporações poluidoras. Ainda existem áreas verdes em
alguns lugares, muitas delas restauradas por magia – mas eu não consigo ver muito delas daqui da
cidade onde moro, da mesma forma que milhares iguais a mim também não conseguem.
E finalmente temos o retorno da magia, que realmente virou as coisas de cabeça para baixo.

O poder destrutivo da grande “Dança Fantasma”, o choque de assistir pessoas amadas se
transformarem em Trolls, programas noturnos de TV sendo apresentados por dragões – tudo isso e
muito mais faz parte da vida cotidiana.
Muitas pessoas podem dizer que estamos de volta à normalidade, de volta à nossa feliz rotina
de autodestruição. Mas isso tudo é um monte de besteira. No último século você podia se imaginar
instalando implantes neurais para segurança no trabalho? Ou se preocupar em não ser incinerado
por um vizinho capaz de lançar uma bola de fogo por causa de uma briga pela vaga do
estacionamento? Você acha que eles sentiram algo comparável ao trauma de ter um parente
goblinizado no que muitos consideram um monstro? Eles se preocupavam em terem seus cérebros
fritados se eles vagassem no lado errado de uma rede de computadores, ou de algum tarado se
projetando astralmente pudesse estar assistindo o que ele fizesse no quarto? Eles poderiam votar em
um dragão para presidente?
Muitas coisas mudaram, mas algumas continuam as mesmas. Grandes acordos ainda acabam
com você tão logo são fechados, e para aqueles que não estão trabalhando para as corporações,
crime é nosso vale refeição.

2 comentários:

Grupo Freehold disse...

Isso ae galera, bem vindos a 2056, e ao mundo tecnofantástico de Shadowrun. É muito bom poder narrar isso pra vcs, e poder voltar ás minhas origens RPGisticas =)
Esse texto é uma pequena parte da introdução traduzida do Shadowrun 4ª Ed. Ela dá uma certa resumida nos acontecimentos do despertar, espero que gostem.
Grande abraço a todos!

Khaibit disse...

uahuahuahuaha vote Thor para presidente!!!! auhauahuahauhauhaua